Quando se está alegre a alegria vem ter connosco, é um contágio que se propaga sem conseguir conter. Ando feliz e tanta gente vem ter comigo feliz, chamando outros para estarem felizes. Até tu. Mas não vinhas feliz. E assim, logo te voltei as costas. És passado, não sei quem és.
.../...
Sinto-me corajosa, tenho um coração vibrante e forte capaz de enfrentar tudo e todos. A minha vontade de viver derrota qualquer um e o meu riso enfraquece os olhares que me tinham como a pobre coitada. Tenho fome de vida, quero ser, quero amar. Mas não aceitarei quem não respeitar a condição que tenho gravada no meu peito: Dar e receber.
.../...
Nem sempre é perto que se está longe. De regresso a casa encontrei um amigo. Há tanto tempo que não nos falávamos. Conversa de infância que me trouxe vontade de sorrir e rir. E ele sorriu e riu. E dum tempo longínquo aproximámos distâncias como se a porta de casa fosse a mesma. Esqueci-me do meu coração perdido e nasceu-me um outro, vivo, jovem, a pular de vermelho e barulhento.
.../...
Por cada caminho feito, distancio-me mais do caminho de casa. Novas ruas, novos rostos, outra rapariga em mim que descubro. Talvez me perca. Fantasio perder-me para me acharem. Ou apenas para sentir um bocadinho de medo na tentativa de regresso ao caminho conhecido.
.../...
Gosto de sentir este frio a gelar-me o rosto. Faz-me sentir viva. É como um estalo que acorda e desperta todos os sentidos, os olhos ficam capazes de ver tudo melhor. Passeio por caminhos onde sei que já estive mas tudo me parece novidade. E acho belo. E acho-me a sorrir deste encontro novo com o passado. Não tenho medo.
.../...
Habituei-me a estar comigo e gosto de estar só comigo. Sei com o que posso contar. Sem sobressaltos, sem dor, sem o disparo da felicidade que descompassa o ritmo dos dias. Tudo está certo.
.../...
Perguntaram-me porque não sorrio. Não sei. Perguntaram-me porque não choro. Não sei. Perguntaram-me então, porque não me zangava, saía e barafustava pela injustiça do que me tinha acontecido. Não me lembro de nada. Disseram-me então, que era tempo de achar um novo amor, que o meu coração era bom e que merecia ser feliz. Não sei de quem falavam.
.../...
Estive a olhar de longe o jardim, o banco e foi como se admirasse uma pintura. A árvore, completamente despida enfeita de um jeito macabro o sitio onde enterrei o coração. Mas não me dói, não me diz nada. Apenas assisto como se eu fosse uma visitante num museu, ao longe uma bela pintura. Sigo o meu caminho, outros quadros a ver, nada me prende em especial para além de bonito ou feio.
.../...
Não me lembro de mim há um ano. Porventura passaram cem, mil, uma eternidade. Não por que peça para me lembrar de mim, do amor que lhe sentía. Não. Lembrei-me de mim como quando nos sentamos à beira da cama a revisitar velhos álbuns de fotografias esquecidas pelo tempo e exclamamos que não tínhamos memória daqueles dias. Só que dele nem sequer tenho um retrato.
.../...
Com o coração esquecido despertaram-me os outros sentidos. Afinal o sexto era o amor. Esta descoberta antes não a tivesse feito, a descoberta dos cinco antes a tivesse mantido no que sempre fora, que os olhos vêem mais agora, as mãos sentem mais a solidão e o gosto amargo dos lábios a beberem as lágrimas aperta o quarto numa míngua ruinosa que ensurdece o silêncio de não escutar o coração.
.../...
Porquê falar de coisas velhas, de ti a mim, da tua tristeza ao meu esquecer, da tua procura à minha partida, do teu interesse ao meu fantasma? Enfado-me, afasto-me, não posso ouvir falar de nós quando nunca tal aconteceu, não quero ouvir falar de futuros possíveis quando as folhas já levadas pelo vento assobiam o frio do final da tarde e me recolho a casa a olhar a noite a caír o que já me escureceu há muito. Não mais, disse eu. Não te quero mais, não ouviram?
.../...
Vi-te passar, olhares para mim, parares. A tua hesitação em falares de coisa antiga foi a minha certeza. Não te quero falar, nem ouvir. Não te quero nada. Quero seguir. Porque quando te vi não te vi, nada senti, eras uma mancha que eu esfreguei até ficar tudo limpo de novo. A tua hesitação é já um outro caminho, o meu uma certeza. Não se cruzam, não voltam, não se enlaçam.
.../...
Tomara já que as folhas das árvores caiam todas. Que os meus pés nos passos perdidos se percam nas folhas caídas sem os poder contar entre tanta folha morta. Eu não estou morta. Nem viva. Nem dorida. Vagueio-me.
.../...
Um dia hei-de encontrar um amor igual ao meu. Grande como o meu. Pequenino que caiba dentro do peito e se ache que se chama coração. Aquele que matei por amor tanto a ele, acabei por não matar. Matou-o ele. Por não saber amar. Por não saber receber o meu amor ou apenas dar a oportunidade de o receber. Um dia ele há-de saber o que é não ter amor e doer por ter de matar o amor.
.../...
Bateste à minha porta de olhos baixos, um pedido de desculpa nos olhos baixos, mas nos lábios um silêncio trocado por conversa miúda. E eu à espera que me dissesses a verdade. Mas tu nada disseste. Não sei porque falei ou se terá sido o fantasma de mim que abriu a boca e a voz saíu. Sem rodeios confessei o meu amor por ti. Os longos anos em que te procurei, todo o tempo em que sofri calada ao ver-te beijar outra, outras, quando te amava. A esperança, por cada vez que te aproximavas ou me falavas ou até o toque da mão nas minhas. A lembrança de um dia junto ao mar a recolher uma lágrima, não te recordas. Mas agora, não mais.
.../...
Não volto mais ao nosso jardim, ao nosso banco. Ali, perto dele e junto à árvore, enterrei o meu coração. Não fica bem visitar a lápide de nós próprios. Fico por casa. Hei-de por aqui vaguear como um fantasma do que já fui, visitar o quarto da que fui e da que sonhei, quando achava que havia esperança de que um dia me olharías e verías a diferença de um verdadeiro amor. Não mais, não mais.
.../...
Calhou estar ali sentada, no nosso banco, e tu passares com outra. Sei que me viste. Até olhaste uma segunda vez. Deste a mão a essa que contigo acompanhava e apressaste o passo. Senti que as minhas pernas queríam correr, mas o coração enterrou-se junto à árvore que me dava sombra e assim, sem sangue que desse combustível para me activar, não me mexi. Fiquei a ver-te as costas até me doerem os olhos e vez nenhuma te voltaste para ver se eu estava aqui.
.../...
Vou ao jardim e sento-me no nosso banco. Como se algum dia tivesse sido nosso, e chamo nosso o que nunca passou de mim e do meu desejo. Faço de mim e da tua imagem desejada um plural imaginado. Sento-me no nosso banco de jardim, no nosso jardim, faz muito calor mas permaneço mesmo que o lugar esteja frio e desocupado.
.../...
Um dia não vieste, e depois dois dias, e a seguir esqueceste-te. Pediste desculpa. Disseste que tinhas muitas coisas para fazer. Eu disse que não tinha importância, tu sorriste, foste embora mais cedo. Vi-te passar mais tarde com uma outra. Não sei porquê, nem me doeu. Mas imaginei-te sentado no nosso banco de jardim com ela, a contar as mesmas aventuras que me contaste para me fazer rir e chorei sem sentir dor nenhuma.
.../...
Procuras a minha companhia todos os dias e ironicamente, tento evitar-te porque a humilhação cobre-me tanto quanto o amor que te tenho. Sentamo-nos no banco do jardim como dois namorados mas não damos as mãos. Tu falas e eu olho para o chão. Depois levas-me a casa, e por detrás das cortinas, sozinha, fico a responder a todas perguntas que fizeste. Meu amor.
.../...
Abro os olhos e a luz magoa-me, mas reconheço o teu cheiro até nesta minha morte. Porque morreste também? Ouço a tua voz, sinto a tua mão no meu rosto, os teus braços a ampararem-me, gente ao redor. Que aconteceu? Nem na morte podemos ficar apenas os dois? Um desmaio dizes-me tu. Que vergonha.
.../...
Aproximaste-te e à medida dos teus passos perto, mais eu ficava longe como se mãos invisíveis me agarrassem e me puxassem para um escuro longínquo. Depois entrei num poço, quería gritar mas não tinha voz, quería ver mas estava cega e tudo tinha desaparecido. Tanto que quis morrer que aconteceu. Logo agora que caminhaste na minha direcção.
.../...
Vejo-te. Nem sequer estás muito longe de mim. Quase te alcanço, mas não sei se tenho vontade, ou se acho forças dentro do meu peito para fazer bater o meu coração, e depois voltar a perder-te, voltar a perder este ardor que já conheci. Melhor deixar ir-te, se calhar és apenas uma mentira como este dia de Abril.
.../...
Olho para trás e não encontro aquela que fui, tão pouco a que se zangou por não te ver, não te achar nas ruas e recantos tantas vezes percorridos na insistência de aí passar mais uma vez, e talvez nessa última, te encontrar. Também eu me perdi de mim. Não quero saber de mim.
.../...
Nada importa. Nada tem valor. Sigo cada rua por onde ontem passei, como a passei nos tempos em que te descobri. No tempo em que te amei. Sou uma viúva sem casamento, sem beijo dado, sem noite amada. Sem branco vestido, desejo que a morte me chegue rápido, nada me resta que esse dia, nem estas ruas tristes que cada dia que passam me parecem mais tristes.
.../...
De joelhos, peço-te, de joelhos não sei a quem, pois tal nunca o fiz, mas ouço-o dizer que quando se pede em fervor e alma se é atendido, pois bem, aqui estou eu, de joelhos e em agonia, sem razão para continuar de pé, se isto é orar, é isto que faço e peço!
.../...
O tempo passa devagar como se não andasse, como se fizesse de propósito para me magoar. Não voltei a encontrar-te nem a ouvir falar de ti. Mas sei que não estou doida e que existes mesmo, vem-me à lembrança pedaços do que ouvi sobre ti, bocados do teu rosto. Mas não consigo recordar o teu cheiro... Se eu fosse ainda uma criança pedia ao Pai Natal para me oferecer de presente a tua visita. Nem que fosse de longe. Só por uns instantes.
.../...
Tento recordar o que me contaram de ti e parece que tudo se me escapa, que nada retenho, que nada me disseram de ti. Será que sonhei? Duvido do que me contaram, duvido de mim, duvido da tua existência. Talvez todos estejam certos e eu esteja mesmo louca.
.../...
Vieram falar-me de ti. E eu calada. Não quero saber. Quem me fala de ti conta-me que falaste de mim. E eu calada. Quero saber. Mas é tudo tão inesperado que nem percebo o que me contam, as palavras chegam numa lingua que desconheço, será que ouço o que quero ouvir ou dizem-me o que disseste? Peço para repetirem duas, três vezes, mas olham-me como se eu falasse de uma coisa estranha.
.../...
Os caminhos por onde passo são os mesmos de sempre. Os da tua procura. Deveríam estar gastos de tanto aqui passar. Ou os meus pés gastos, comidos até aos joelhos de tanto calcorrear ruas na procura da tua sombra, das tuas costas a irem-se e eu atrás de ti como sempre, como sempre uns metros atrasada para que não desconfies. De que me servem pés e pernas se não te acho? Começo a desesperar, sinto-me triste, triste.
.../...
©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016