De joelhos, peço-te, de joelhos não sei a quem, pois tal nunca o fiz, mas ouço-o dizer que quando se pede em fervor e alma se é atendido, pois bem, aqui estou eu, de joelhos e em agonia, sem razão para continuar de pé, se isto é orar, é isto que faço e peço!
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O tempo passa devagar como se não andasse, como se fizesse de propósito para me magoar. Não voltei a encontrar-te nem a ouvir falar de ti. Mas sei que não estou doida e que existes mesmo, vem-me à lembrança pedaços do que ouvi sobre ti, bocados do teu rosto. Mas não consigo recordar o teu cheiro... Se eu fosse ainda uma criança pedia ao Pai Natal para me oferecer de presente a tua visita. Nem que fosse de longe. Só por uns instantes.
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Tento recordar o que me contaram de ti e parece que tudo se me escapa, que nada retenho, que nada me disseram de ti. Será que sonhei? Duvido do que me contaram, duvido de mim, duvido da tua existência. Talvez todos estejam certos e eu esteja mesmo louca.
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Vieram falar-me de ti. E eu calada. Não quero saber. Quem me fala de ti conta-me que falaste de mim. E eu calada. Quero saber. Mas é tudo tão inesperado que nem percebo o que me contam, as palavras chegam numa lingua que desconheço, será que ouço o que quero ouvir ou dizem-me o que disseste? Peço para repetirem duas, três vezes, mas olham-me como se eu falasse de uma coisa estranha.
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Os caminhos por onde passo são os mesmos de sempre. Os da tua procura. Deveríam estar gastos de tanto aqui passar. Ou os meus pés gastos, comidos até aos joelhos de tanto calcorrear ruas na procura da tua sombra, das tuas costas a irem-se e eu atrás de ti como sempre, como sempre uns metros atrasada para que não desconfies. De que me servem pés e pernas se não te acho? Começo a desesperar, sinto-me triste, triste.
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Rio, sinto-me feliz, alguma coisa me diz que dentro em breve dobras uma qualquer esquina e dou contigo. Chamam-me tonta, sabem lá porque estou assim, dizem-me que adivinho chuva como se fosse presságio de coisa má. Tontos são eles, pois não é o sol que rompe de novo entre o cinzento do céu?
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Chove, chove muito. Li há muito tempo que quando chove assim, são os anjos que choram. Procuro livros de poesia onde consiga entristecer-me pela tua falta, mas tudo me aborrece, nada me entretém, nada me põe nesse estado de melancolia que leio nos poetas apaixonados a falarem de anjos que choram. Só consigo ver-te e essa imagem enche-me o peito, deixa-me feliz.
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Terminou o Verão e guardei as recordações de uma paisagem de mar e tu ao meu lado. Gostava de saber escrever poesia para te fazer um poema. Havería de contar sobre as minhas lágrimas como diamantes ou qualquer outra coisa bonita como os poetas sabem dizê-lo. Só para te oferecer. Tomara que o Outono te traga de volta a mim. Escrevería um hino.
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A vida tornou-se mais fácil. Para além do que me lembro, tenho a tua voz presente, o saber a que sabe o teu beijo, o saber a que cheiras, o calor das tuas mãos a prender a minha. São presentes, são segredos. Tenho dias que sou feliz apenas com isto. Outros, digo-me que mereço mais. E vou empurrando o tempo em doses de sim e não até encontrar-te de novo.
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Descubro-me a achar o teu cheiro em toda a parte e fico doida a procurar-te. Rodo à volta de mim, das minhas mãos, dos meus braços, fico tonta de tanto girar à volta do que me cerca e não te vejo. O meu nariz prega partidas como se te escondesses de mim só para me pôr à prova. Não esqueci a que cheiras.
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Cheiro a minha mão, os dedos, o pulso, a minha mão direita cheira a ti, a minha mão direita não tem o cheiro da minha mão esquerda. A minha mão esquerda cheira a mim e esta, a que tu tiveste entre as tuas mãos e beijaste cheira a ti. Deixaste-me um pedacinho de ti na minha mão. Não foi só um beijo, não foram só os teus olhos nos meus olhos e o meu riso parvo, foi o teu cheiro agarrado à minha pele. O sonho que eu tive era o aviso do que ía acontecer, sei-o.
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Um beijo na minha mão e foste-te. Mais um sorriso. Não te viraste. Eu fiquei. Nem um passo conseguía dar e o mundo abría-se para me engolir. É mesmo verdade o que aconteceu ou foi mais um dos meus sonhos?
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Seguraste-me a mão, a direita. A mão direita entre as tuas. Não me lembro do que disseste, não o consegui ouvir, vejo os teus lábios a mexer mas não consigo ouvir o que dizes, tudo roda à minha volta e ouço um zumbido que aumenta e cobre todos os outros sons. Fala mais alto que não entendo o que dizes, só sinto a minha mão direita entre as tuas mas também não consigo olhar para ela, estou presa aos teus olhos e tudo anda tão devagar como se fosse um filme passado em câmara lenta.
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Agora que estavas tão perto eu só quería fugir! Que vergonha! As pernas tremíam-me, as mãos suadas como água bebida por elas, e o riso a saír como uma tonta. A boca não conseguía dizer nada, só o riso ocupava o sitio das palavras e por mais que eu tentasse não conseguía, não conseguía. Tu olhavas para mim e sorrías, quase benevolente, sorrías com compaixão por esta pateta alegre. E de cada vez que nos encontramos é assim: choro e rio sem dizer que te amo.
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Onde as esquinas se encontram assim batemos nós. Um no outro sem nos procurarmos. Pelo menos tu, que não me buscas de certeza pela certeza da minha inexistência e eu, que nesse dia não te pensava por ali. Batemos coração com coração e os teus olhos sorriram primeiro que a boca e a minha boca riu ao mesmo tempo que os olhos. E tu disseste a menina que olha o mar e chora quando o vê. Afinal recordas-te de mim.
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Sabendo da minha perdição por ti escusam-se a falar-me de ti, de amor, de todas as coisas que me possam levar à lembrança do que tu és. Pobres coitados que me pensam como pobre coitada. Nunca me sais, és sempre tudo o que respiro, o que sou. Muito menos são eles que se evitam à dor na esperança de escaparam à flecha do amor verdadeiro. Não eu, eu dou o meu peito e sorrio.
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Sonhei contigo. Não falaste, apenas te abeiraste de mim, seguraste o meu rosto, muito perto. Senti-me a queimar por dentro, quase envergonhada por saberes o quanto te quero. Tocaste os meus lábios com a ponta dos dedos. Não fechei os olhos. Lembro-me de lembrar que era um sonho. Beijaste-me. Ficou tudo branco. Acordei. Nunca me tinhas beijado, nunca, nunca. Nem me consigo mexer com medo de esquecer.
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Não sei se eras tu ou se o sol de frente me enganou. O meu coração bateu tão rápido, mais rápido que as minhas pernas puderam acompanhar a corrida que tentei fazer para te alcançar. Não cheguei a tempo, não consegui ter a certeza. Mas a esperança de saber-te perto libertou a recordação de todos os sentires aprisionados e mesmo não sendo tu, que importa agora? Já sei onde te procurar no meu peito.
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Voltei ao mar, lembro-me de aqui ter estado e tu também, não foi um sonho, tu tocaste-me. Quero segurar esta memória como os teus dedos agarraram aquela lágrima. Foi de verdade. Volto ao mar, à sua imensidão e beleza e fico tranquila por sentir que me dói aqui no coração lembrar-me de ti naquele dia. Afinal ainda dói. Não é como as mulheres disseram, que tudo passa. O vento suave levou o meu chapéu. Mas tenho a certeza que foste tu a soprar.
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Venho para a rua passado tanto tempo. Não sei andar. Não sei descobrir os caminhos de outrora onde caminhava sobre os teus passos e os meus passos decalcavam as tuas passadas sobrando tamanho. Estou perdida. Rodo na procura de um cheiro familiar que me traga o despertar de coisas que me digam que és tu e nada. Tudo me é novo porque tudo me cheira a coisa velha. Sem ti.
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Tudo passa, tudo, dizem-me. Deve ser certo, ou não haveríam mulheres. Mas eu devo ser aquela que mais amou em todo o universo. Não vejo outra que tal condenação lhe tenha caído em cima. E no entanto, não me acho mal por isso. Rara, apenas. Quisera eu ser apenas mais uma de todas as outras mulheres que se passeiam no mundo e isso sería sinal de que tu estarías a meu lado.
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Contam-me histórias para me entreter enquanto me acho de cama. Não sei quem lhes disse que as quero ouvir. Já tenho a minha, melhor que todas essas que inventam. Ocupam-me o tempo enquanto eu as desocupo de outras obrigações. São todas mulheres, e todas elas contam histórias com finais felizes. Como se eu acreditasse. Creio bem, que elas já passaram por aquilo que eu agora passo, e alguém lhes fez o mesmo que elas a mim agora me fazem. Por isso sabem do logro.
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Não sei que tenho mas não tenho força. Dizem-me que estou doente mas não me acham doença. Se te encontrarem eu nada direi.
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Durmo. Creio que durmo, devo sonhar pois que te vejo e se assim não fosse estaría acordada. De que outra forma estarías junto a mim, se tanto te apartas, se tanto andas no outro lado do passeio, do outro lado do mar como poderías agora, aqui no meu quarto estar junto a mim e na beira da minha cama, tão próximo, tão perto te sinto que quase és lume onde me queimo.
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Perguntam-me que tenho eu, tão magra, de olhos tão dentro e peito murcho, as mãos como linhas arrancadas de roupa velha. Tenho vergonha da verdade, não posso responder. Faço de conta que sorrio mas já foi há tanto tempo que sorri que todos me olhem com pesar e tristes, abraçam-me como se se despedissem de mim.
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Desde aquele dia que os teus dedos tocaram na minha pele, que nada sinto. Não por não querer ou desejar. Que se falasse de desejo, a morte tería vindo calma, de passos miudos e ter-se-ía sentado a meu lado depois de teres ido com ela, mãos dadas, de novo a minha inexistência como presença total.
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Ver o mar dá-me vontade de entrar nele e perder-me. Era assim que eu estava quando te chegaste a mim e me tocaste no ombro. Pensei que sonhava, que não eras tu, que talvez por o querer muito e o sol me batesse nos olhos, eu tivesse inventado que eras tu que te aproximavas. Perguntaste-me porque razão eu chorava e eu não disse nada. Sentaste-te a meu lado e falaste do mar, como gostavas de o olhar e de te perderes na sua imensidão. De como uma menina bonita como eu não devería chorar, limpaste-me as lágrimas com a ponta dos dedos, desejaste-me boa sorte e partiste com ela que entretanto chegara.
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Voltamos ao mesmo. Eu, na minha infinita senda de amor calcorreio as tuas pegadas, agora de quatro pelos teus pés acompanhados, tu ignorante das verdades, arrastas no braço uma qualquer vaidade que te há-de trazer muita vergonha. Sinto que ela faz parte da tua indumentária, eu faço parte do teu esquecimento. Não voltámos ao mesmo. Eu nunca fui parte de ti, desconheces-me de todo. Prefería que me detestasses.
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Eras tu, eras tu quem passou e que me levou louca a correr, a cair e levantar e procurar! Ondes estás? Passou tempo demais mas eu não te esqueço, como podería, meu amor? Meu amor! E fico doente ao dizer isto baixinho, quero dizê-lo alto sem ser ao espelho frente à minha imagem, correr pela cidade de braços abertos aos gritos a fazer abrir janelas para que me ouçam! Eras tu! Para onde fostes, que não te acho? Que importa, voltaste e eu não quero nunca deixar de te amar. Sinto sangue em mim. Estou tão viva.
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Não há flor que desponte que me traga alegria. São tantos os desertos que me rodeiam quanto aquele que sinto por dentro. Não sei se deste amor que me secou se da falta que me fazes. Nunca mais te vi e a tua ausência é a minha pior vingança que possa alguma vez eu ter imaginado que podía marcar-te. Não sei de ti e ninguém mo responde porque não tenho coragem para perguntar sem me sentir culpada do teu desaparecimento. Agora acredito quando dizem que é melhor não se desejar muito uma coisa que ela é bem capaz de vir a acontecer.
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©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016