Ouvi dizer que arranjaste namoro. Sei que não é verdade. Sei que não pode ser verdade, ao fim de todo este tempo sei o que queres e não podes querer esse passar de tempo apenas para estares acompanhado. Dizem-me que é coisa séria, que porfiaste para a teres, que andaste triste e sombrio. É tudo mentira, quem mo conta quer-me mal. Ou será que agora já sabes o que passo para te ter? É bem-feita, oxalá ela te deixe.
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Acaso tivesse eu idade para acreditar no Pai Natal ou outras estórias da carochinha este sería um tempo perfeito para me pôr a escrever e fazer uma lista de pedidos. Um só, repetidamente: Quero-te, quero-te, quero-te. Devo dizer isto por três vezes. Toda a gente sabe que quando se quer muito uma coisa se deve dizê-la assim.
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Bastou ver a tua figura ao longe para o coração desprender-se da minha vontade. Toda a determinação fugiu, esqueci-a, voltei a amar-te ainda mais forte logo ali naquele instante. À medida que chegava perto de ti todo o cenário se diluía sem importância alguma, só tu, só tu e o meu ver-te. Sorriste, achei que era para mim, senti coragem para te falar. Mas tu não me ouviste, quem te fazía despertar era quem vinha atrás de mim. Não eu, nunca eu.
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Sinto-me forte. Curada. Não me afectas mais, não te tenho mais nada para além de pensar como é que um dia fui capaz de sentir o que senti por ti. Que nem sei mais o que foi. Pensei que fosse amor mas não deve ter sido pois dizem que o amor é para toda a vida e não passa, é como uma doença incurável. E eu estou curada, de um dia para o outro não sinto nada por ti. Só não sei como explicar este vazio que me tomou o peito. Ser forte é sentir vazio?
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Se contar todos os canteiros floridos deste caminho e der número par já sei que te encontro; se a soma for ímpar hoje não te vejo. Invento jogos tontos que só eu percebo, acho que assim desafio a sorte, tudo me é sinal da tua proximidade, da tua distância. São enganos que me satisfazem, são acasos que me fazem sentir pequenina, invisivel. Servem para distraír a verdade, tu não me vês.
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Tu ali à minha frente. A falares comigo. Não sei o que me disseste, não consigo lembrar-me. Mas tenho a certeza que aconteceu. E recordo-me que tentei ser engraçada, espirituosa, desembaraçada, sobressaír entre as outras pessoas que também estavam presentes. E o que me ficou foi a figura estúpida que fiz, uma tontinha, pateta alegre. Tanto que esperei por aquele instante e desperdicei-o. Agora é que foi mesmo o fim. Do que nunca começou.
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Fui à tua procura, passei pelos sitios e caminhos onde sei que costumas estar. Nada, não te encontrei, ninguém sabía de ti. Não me incomodei que ficassem a pensar que interesse possa eu ter em ti, hoje estou corajosa, decidida a que notes que eu existo. Já que não me atravessei no teu caminho, ao menos que te vão contar que quis saber de ti. Talvez te perguntes quem sou eu, faças um esforço para avivar o meu rosto na tua lembrança, aches estranho uma desconhecida procurar-te. Sempre é melhor que nem dares por mim.
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Já dei comigo a pensar que és uma benção na minha vida. Isto nos instantes em que olhas para mim e até parece que me vês. Mas também já amaldiçoei todo este amor que te tenho e me consome dia e noite. Isto nos instantes em que olhas para mim e o fazes de raspão, muito educado, mas sem prestares atenção alguma ao que os meus olhos te gritam. O que eu gostava mesmo é que a metade de mim que está enfeitiçada ordenasse à outra encantada que se esquecesse de ti. Mas entre um feitiço e uma magia, que diferença existe para o amor?
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Finjo que és o meu homem e foste para longe. Escrevo-te. Digo-te aquelas coisas todas que se dizem nas cartas, a saúde, os desejos de te encontrares bem, as saudades de nos voltarmos a reencontrar. Quando chego à parte final, a do beijo, é que tomo consciência que por cada carta que te possa escrever, se tu fosses o meu homem, outra de ti recebería. E aí não sei levar o meu fingir para tão longe.
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Por vezes pergunto-me se o que sinto por ti é tão forte só porque não foi realizado. Se de facto soubesses em que conta te tenho, e me amasses e estivessemos os dois juntos sería assim uma coisa tão grandiosa? Este platónico amor, esta dor que aspira pelo desconhecer que tens de mim, transformar-se-ía numa banalidade, chamada de amor igual ao dos outros? Faço estas perguntas para saciar a minha intranquilidade. E cada vez a sede de ti aumenta como o peregrino perdido no deserto.
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Às vezes sonho contigo. Sonhos bons em que conversamos, te confessas apaixonado ou não dizes nada. Acabam sempre da mesma maneira: Tu a abraçares-me forte pela cintura, as nossas bocas muito próximo, sei que me vais beijar, fecho os olhos para guardar esse instante... E acordo. Deixo-me ficar de olhos fechados a saborear o que me pareceu ter sido tão real. Mesmo que no sonho nunca me chegues a beijar. Fico feliz por um bocado e depois só me apetece chorar.
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Não estava nada à espera de te encontrar! Que susto! E eu tão mal vestida, tão mal preparada para este destino súbito que nos cruzou. Suei, senti a água do meu corpo a saír como se tivessem aberto um carreiro para alagar um campo de cultivo. Apenas me cumprimentaste. Socialmente. Como convém a duas pessoas que se conhecem de ver. Se tu soubesses da nossa intimidade!
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Em dias de sol imagino-nos juntos, uma vida a dois, aquela cumplicidade dos grandes amores. Consigo pôr-te palavras na boca, respostas às perguntas que te faço, é a tua voz a corresponder à minha numa ligação perfeita sem interferências, sem ruídos que afectem a melodia do dia. Depois, conforme o sol vai baixando assim a minha onda de pequena felicidade se vai. E de tanto sonhar parece que só me resta uma poça de águas paradas.
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Quando te vejo e me aproximo de ti, faço-me anunciada e sorrio e tu alargas os lábios a fingir que é um sorriso também, a fingir que és cortês e educado, que me prestaste atenção, o meu coração tinge-se de um ódio maior do que o amor que te tenho. Afasto-me, arranjo-te defeitos e maldades, detesto-me.
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Dedico solenemente todas as coisas bonitas que vejo e que faço a ti. Uma espécie de oferenda aos deuses para te conquistar a graça, o pensamento. Sei bem que isto é uma estupidez, nunca deves ter pensado em mim mas depois aplaco a minha insegurança dizendo-me que os deuses são mesmo assim, parecem nunca notar a presença dos mortais. Bem mortal sou eu pois por ti, acho que morro.
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Tenho dias e dias de não me conseguir concentrar porque só te vejo à minha frente. Uma ilusão que me faz atravessar a rua a correr sem reparar nos carros que passam, apitam e me chamam louca. Quando chego ao lado do passeio onde estás não estás. De outras vezes esforço-me tanto por te recordar a cara, os movimentos, o som da voz e nada me chega. É sempre uma alucinação sem meio-termo.
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É à noite que me perco em deambulações sobre os teus beijos, como serão os teus beijos, como reage a minha boca à tua, se beijas longo, molhado, apertado, se me agarras no pescoço, se beijas de olhos fechados ou a olhares para mim. Imagino isso tudo. Nunca nos beijámos, nem no rosto e mesmo assim sinto saudades do que nunca provei.
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É um pesado fardo gostar tanto de alguém. Como eu de ti. Mas para além desse gosto, escondê-lo como se fosse um crime. Acho que como todos os pecadores espero um dia que se descubra esse crime. Sem poder fazer nada para o impedir havería de me sentir liberta deste peso, leve por já nada voltar a ser como dantes, ainda assim escrava do que continuarei a sentir.
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Os filmes de amor em que tudo acaba mal têm o condão de me aproximar ainda mais de ti, do que sinto por ti e pareces ignorar ou simplesmente fazer de conta que não sinto. Acho que os procuro deliberadamente. É uma forma de justificar as minhas lágrimas, assim não tenho que procurar outras explicações, basta dizer que sou romântica . E choro, choro até ficar com os olhos inchados e me sentir destroçada. É quase um alívio.
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Arranjo-me para ti, tento imaginar o que gostarás de ver em mim e procuro nos pormenores que fixes alguma coisa que te faça lembrar de mim. Não sei se te vou encontrar ou se tal acontecer se falaremos, se darás pela minha presença. Mas não quero correr o risco de me achares banal. Demoro muito tempo a adivinhar o que gostarás de ver em mim, tanto, que fico indecisa. E acabo ao espelho a dizer o quanto sou estúpida por te dar tanta atenção.
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Onde é que andas que não te vejo, não te encontro, não sei nada de ti? Se calhar isto está a acontecer porque fiquei triste contigo, por não me teres dado importância naquele dia. Arrependo-me, juro que não volto a ter pensamentos daqueles. Já podes aparecer, só te quero ver, nem que seja ao longe e a ignorares-me. Contento-me com isso. E a partir daí pode ser que consiga alterar o rumo do destino e tu notes a minha presença.
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Vi-te ao longe, acenei-te, acenaste-me. E depois viraste costas e aparentemente muito feliz continuaste a conversar com quem te estava próximo. Não sei quem era, mas desde já odeio-a. Deverías ter deixado essa companhia e teres-te aproximado de mim, mostrar felicidade por estares perto de mim. E quanto muito poderías ter acenado a quem deixaste. Penso se não te tivesse feito sinal se de vontade própria me terías retribuído. Logo hoje que me sinto tão corajosa. Mas agora já não vale a pena. Nem tu mereces.
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Quando me sento a observar o mar, especialmente no Inverno quando está tempestuoso e gelado e os salpicos me arrepiam, penso sempre em ti. O quanto gostava que estivesses do meu lado e adivinhasses o que te digo cá por dentro. Como não estás acompanho o meu sentir com saudades de ti, faço-me viúva e uma mórbida satisfação completa-me.
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Tenho a íntima fantasia de te ver chegar num corcel, branco, tem de ser branco, é todo branco no meu delirio. Eu sou uma princesa presa numa torre à espera que alguém chegue, corajoso, para me salvar do fogo do dragão. Bem sei que isto é uma história infantil das que se contam para adormecer. É por isso que a conto a mim mesma muitas noites em que o sossego não chega.
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Sempre que te encontro o meu coração dispara e fico com medo que me salte pela boca fora. Ou pelo menos as palavras que escondo cá dentro e que tenho vergonha que as saibas. O medo é tanto que só me apetece fugir e no entanto, padeço quando não te vejo. Se tu soubesses disto nunca mais olhavas para mim e acho que eu morrería de embaraço. Mas cá no fundo, silenciosamente, cobardemente gostava que o suspeitasses. Ou que o meu coração estúpido e desgovernado to contasse.
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©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016