Não é justo nem apropriado que te venhas sentar no banco de jardim. O meu banco de jardim. O nosso que foi. Fiquei parada nesta procissão que todos os dias faço, talvez espere que a chuva esburaque de vez a terra e coma os restos do meu coração, mas não serás tu a desventrá-lo onde eu o enterrei. Ergues-te quando me vês, sorris, cobres o meu corpo com o teu guarda-chuva e tão próximo quanto dois estranhos falamos do tempo, da chuva que cai miudinho neste momento, do frio de Dezembro, de palavras que não me lembro de dizer.
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O banco de jardim é agora um monumento a um pedaço de terra empapada onde apodrece o meu coração. Falta alguma me fará, sigo sem ele, assim o tempo vai correndo também sem aves no céu ou estas a cantarem para dizerem vida na terra. Tudo parece parado. Só eu sozinha caminho nos mesmos passos de sempre infindavelmente conhecidos sem evitar a repetição dos dias e a repetição dos passos nos caminhos. Não me procuro, persigo-me.
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Deixo-me andar cá fora ao frio até tarde, muito tarde, até a luz toda se ir e eu não conseguir mais ver as pequenas aves. As estórias esgotam-se com a claridade e entro, ponho um xaile sobre os ombros e ouço os demais falarem como estou melhor, como tudo me passou, como tenho ido para a rua procurar a vida lá fora e olhar os céus, sorrir com os pássaros que emigram na busca de calor. Aconchego-me à memória dos teus olhos, da tua boca, do teu silêncio e são todos esses adeuses que me desligam a luz.
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As aves já partem, juntas, um traço negro a desenhar-se no azul que as recebe gratificado e se agua em lilases amarelecidos pelo declínio do dia. Acalmo o meu peito imaginando que me levam consigo, lá do alto é tudo tão distante e difuso, até as dores de ter sentido a paixão de um dia ter sido mulher.
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O dia está tão bonito, o céu tão liso que quase tenho medo de saír à rua. Medo de me sentir feliz com o sol, claridades a inundarem-me na esperança. Medo de ter esperança. Porque sei que não aguento voltar a sentir, ter veias e doer-me nos braços a vontade de um abraço. Medo de querer de novo e nada alcançar, tudo se repetir como os caminhos que os meus passos comandam sem ser à minha voz. Que medo que dá ver um dia tão escandalosamente belo.
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Pensei no meu coração enterrado junto ao banco do jardim. Levei-lhe flores. Talvez assim, quando de novo te encontrar, o meu sorriso se lembre destas flores deixadas em peregrinação. Talvez recupere a voz na oração que não soube fazer e te chame. Talvez haja tempo de esperar pelas lágrimas do reencontro e alimente a terra onde seca uma parte de mim.
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Se tivesse tido força tinha aberto a boca, chamado por ti, mostrava-te o meu sorriso. E desse vislumbre do teu, o meu regar-se-ia como flores que renascem sedentas quando aparentam ter murchado. Fiquei por lá, parada, sem nada na garganta que me impelisse o som, os lábios desenhados na vontade, mas o viço não despontou sequer um botão.
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Tu, de novo. Eu sem saber como se faz para sorrir, o tempo desaprendeu-me, o coração enterrado perto do banco do jardim ficou-me com o sangue que me daría a força para arquear os lábios, tingi-los da vida que agora preciso para me poderes ver. Tu, outra vez e a sorrir para mim. Tento recordar-me como se faz para mostrar um sorriso mas quando a lembrança volta já tu partiste. Sorrio ao ver as tuas costas a afastarem-se.
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Como era feliz quando ignorante achava o plano dos sonhos o fio que me havia de levar, sem perder, à concretização do meu amor por ti. Eram esboços do que havería de ser a obra principal. Não sei quando, esse fio libertou-se da minha mão, fiquei sem saber como chegar aos sonhos, perdi-me. E neste estado, sem viver e sem sonhar, acharam-me alma penada, levaram-me antes do tempo.
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Por andar tão curvada vejo melhor a ponta dos meus passos. E admiro-me, de ensinados que estão na trilha de caminhos sempre conhecidos, não me obedecerem a mudar a direcção. Fatalmente. Porque me levam, penosos, a viagens de sons e imagens em que tu apareces, em que eu ainda sonhava com beijos que me pudesses dar. Peço aos passos que parem, mas lestos encaminham-se no conforto do espaço onde a memória lembra tempos felizes.
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Sinto um peso nas costas, todo o chumbo que se me agarrava ao peito e me fazía curvar, apoiou-se sobre os meus ombros, a nuca. É uma força brutal que me carrega para baixo. Talvez a culpa seja minha, deverá esta ser a sensação dos condenados, clamarem a sua inocência e nos olhos dos outros ver o espelho dos seus crimes. O meu sabes bem qual é. E carrega-me, quase me sepulta.
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Vi-te. Tu também, disseste adeus e com um grande sorriso. Depois seguiste caminho. Livre como se não fosses culpado de nada.
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Agora atravesso o jardim em passos largos. Não me sento no banco, sustenho a respiração o quanto posso para que não fique presa nas alucinações do perfume das flores. Mas fora dali, quanto mais força faço para te trazer à lembrança, mais distante me apareces, mais longe ficas. Arrependo a minha promessa e tenho vontade de voltar ao banco do jardim, de dizer sim de novo, que te quero a ocupar-me outra vez. Antes o sofrer por um amor ausente que nada ter, nem memória, nem cheiro de coisa vivida, só vislumbres de filmes de amor representados em salas escuras onde se chora por outros por não saber o que é chorar por si.
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O tempo quente traz o sabor das flores. Dei comigo no nosso banco de jardim. Talvez inebriada pelo perfume do ar, as recordações vieram em ondas como se a tua presença ao meu lado fosse tão real quanto o sol a bater no meu rosto. Mas dizias-me coisas nessas lembranças, que não estou muito certa que tenham acontecido. Eram demasiado belas, demasiado apaixonadas, demasiado verdadeiras para que fossem a verdade do que guardei. Dei comigo no banco do jardim, bêbeda de saudades e desejei que o Inverno chegasse para me curar.
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Penso nele. Em ti, sim. E traço linhas do destino daquele tempo em que eu caminhava por cima das tuas pegadas invisíveis, agora alguém as faz nas minhas. O tempo aperta-se como um parafuso que se enrosca sem ter fim, moído pelo coração dos que se querem e dos que não se querem. Dois mundos. Dois tempos, dois destinos. O meu, sempre do lado errado.
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Então é isso, querer e não querer, querer e não poder, querer e não chegar. Persegue-me como um cão castigado que procura a clemência do afago. Mas sei, que mal eu pousar a mão sobre o dorso, o pêlo se há-de eriçar preparando-se na oportunidade para me morder. Prefiro que a dentada da recusa me ferre o peito e mantenho-o afastado. Não voltaremos ao jogo do perdão.
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Porque não sabem, dizem-me que fujo da felicidade. Não sabem de nada. Corro de encontro à solidão, velha amiga que prefiro ao engano de um amor que me toma os pulsos até aos ossos, para depois ajoelhar na penitência. Não sabem de nada, julgam-me doida por preferir os cantos ao abraço do meu carrasco. Não sabem de nada, nem quem sou nem quem fomos.
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Sou a corajosa e digo-te, logo eu que tanto busco o amor. Não queres escutar, foges para as recordações de um corpo único em que fomos e fazes-me chorar. Acaso achas que eu possa esquecê-lo algum dia? É por essa honra que temos e que tivemos que cada caminho agora se fazem dois. Deixemos o que é bom enquanto é bom, não vale a pena apodrecer o que está dentro de nós.
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Afirmas-te diferente e que não voltará a acontecer mas de tantas vezes o dizeres, vejo disfarces nas palavras insistidas em que tentas convencer mais a ti do que a mim. Porque eu nada digo, baixo os olhos para que não vejas que eu sei. Estamos acabados. Que pena. Éramos tão belos. Tão mais belos porque ainda nos gostamos e não podemos estarmos juntos. Infortúnio este.
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Pedes perdão e eu perdoo. Mas não me convenço porque não me perdoo a mim, fica-me um espinho agarrado ao peito a sangrar devagarinho. Sei que outras vezes virão e das próximas esta ferida infectada vai deitar tanto sangue que há-de matar o que já não tenho.
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E de novo essa aflição nos olhos. Não posso ignorar no olhar o que já vi nos meus olhos um dia. É ciúme. Essa fome que começa por comer por dentro antes de desbastar o outro por dentro e acaba a consumir o que de bom se tem. Não quero ser presa nesta jaula de novo, muito menos porque não foi construída por mim. Talvez não seja amor o que sinto, se não quero estar presa e se assim não é, o que é desta vez?
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É por amor, tão só por amor que esta febre te deu, disseste tu e eu até sorri, não lhe chamei o nome que se dá à coisa que amarga o peito e que eu tão bem o conheço por um dia o ter trazido aqui dentro aconchegado. Mas quase tenho medo de o dizer. Ou por lhe saber o gosto e tu tomares-lhe o gosto e não pararmos os dois esta coisa má que nos acabará.
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Não me perguntes se te vou amar para sempre, o sempre é agora porque é agora que é verdadeiro. De onde veio esta fornalha que parece, estará a queimar rápido demais, brasas que se alastram e temo, peguem incêndio ao que parecía o paraíso?
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Tornei-me uma mulher, aprendi-me mulher, deitei-me menina e ergui-me mulher. Não por ele, mas por mim. Para me amar primeiro a mim para depois o amar a ele e a nós. Não me consciencializei do ocorrido, aconteceu naturalmente sem empurrões nem esforço, deixei de me violentar e lembrar de esquecer. Ou esquecer o que tinha para me lembrar. Só precisava de doer para crescer. Como a todos.
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Falamos menos, dizemos mais. Olhamo-nos e sabemos. Por vezes nem precisamos de nos tocar mas é fundamental que estejamos perto um do outro, que nos olhemos, para saber o que dizer, o que ouvir. Ele chega e põe a flor no meu cabelo. E depois parece nada. E tudo acontece. Um beijo. Por vezes ficamos muito tempo no silêncio, sem darmos as mãos, quem nos observar há-de dizer que somos dois estranhos, casualmente sentados lado a lado. Sem sitio especial. É verdade, só nós o conseguimos ver.
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A exultação do amor através da linguagem do corpo, tudo fala, gritos silenciosos em que a pele se explica melhor que as palavras ditas, as palavras na mão do escritor habituado. O meu corpo ensinado, o corpo virgem como se sempre tivesse sido educado ou preparado para esse instante. Tudo me fala. E no final, amo-te.
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Cada beijo é uma descoberta, uma jóia, novos sentidos explodem em mim como se outra em mim se construísse dentro e rompesse a de fora. Sinto uma quase dor que não chega ser dor e no entanto dói, desejo esta dor, tão parecida a um prazer. Acho-me quando só no meu quarto, em contemplativas visitas a estes beijos e de olhos fechados revivo-os em momentos únicos como se lhes adivinhasse um fim próximo. Guardo-os na minha memória.
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Como é diferente amar e ter amor. Tão estranho amar e não ter mágoas e não sentir dúvidas e ao mesmo tempo suspeitar e perguntar porquê eu no meio de tantas, que terei eu de especial. E ainda assim, olhar no espelho e ver brilhar e dizer com as palmas atiradas à imagem, eu sou tão especial, amo e sou amada, sem mais nada que não eu, porque sou eu, e se outra fosse não haveria este amor tão raro e especial.
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Este foi um beijo de beijo dado. De beijo recebido. De olhos abertos para ter certezas no beijo de olhos fechados. Um beijo de paixão, um beijo de certezas no amor duvidoso, um beijo-sim, um beijo-afinal, um beijo-verdade. Este foi o beijo que não dei e que sonhei por tantas noites, o treinado, o imaginado. Mas foi muito mais que isso, porque foi a surpresa do momento, a vontade minha e dele sem mais ninguém no peito que nós dois, foi a minha liberdade finalmente a desejar, sou eu a beijar.
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Aprender a amar, disse-me ele, e ofereceu-me outra flor. Quase todos os dias me dá uma flor, diz-me que sou como a natureza e como ela devo ser brindada com todas as cores e perfumes. É fácil gostar dele, estar com ele, mas não sei se é um novo amor. Talvez me tenha habituado a amores difíceis ou apenas amores imaginados em que desenhamos tudo para parecer um príncipe encantado porque sabemos que este não existe. O mal é de mim, só pode ser, que tenho o que quero e só me acho defeitos para não ter o que posso.
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©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016