Agora atravesso o jardim em passos largos. Não me sento no banco, sustenho a respiração o quanto posso para que não fique presa nas alucinações do perfume das flores. Mas fora dali, quanto mais força faço para te trazer à lembrança, mais distante me apareces, mais longe ficas. Arrependo a minha promessa e tenho vontade de voltar ao banco do jardim, de dizer sim de novo, que te quero a ocupar-me outra vez. Antes o sofrer por um amor ausente que nada ter, nem memória, nem cheiro de coisa vivida, só vislumbres de filmes de amor representados em salas escuras onde se chora por outros por não saber o que é chorar por si.
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O tempo quente traz o sabor das flores. Dei comigo no nosso banco de jardim. Talvez inebriada pelo perfume do ar, as recordações vieram em ondas como se a tua presença ao meu lado fosse tão real quanto o sol a bater no meu rosto. Mas dizias-me coisas nessas lembranças, que não estou muito certa que tenham acontecido. Eram demasiado belas, demasiado apaixonadas, demasiado verdadeiras para que fossem a verdade do que guardei. Dei comigo no banco do jardim, bêbeda de saudades e desejei que o Inverno chegasse para me curar.
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Penso nele. Em ti, sim. E traço linhas do destino daquele tempo em que eu caminhava por cima das tuas pegadas invisíveis, agora alguém as faz nas minhas. O tempo aperta-se como um parafuso que se enrosca sem ter fim, moído pelo coração dos que se querem e dos que não se querem. Dois mundos. Dois tempos, dois destinos. O meu, sempre do lado errado.
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Então é isso, querer e não querer, querer e não poder, querer e não chegar. Persegue-me como um cão castigado que procura a clemência do afago. Mas sei, que mal eu pousar a mão sobre o dorso, o pêlo se há-de eriçar preparando-se na oportunidade para me morder. Prefiro que a dentada da recusa me ferre o peito e mantenho-o afastado. Não voltaremos ao jogo do perdão.
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Porque não sabem, dizem-me que fujo da felicidade. Não sabem de nada. Corro de encontro à solidão, velha amiga que prefiro ao engano de um amor que me toma os pulsos até aos ossos, para depois ajoelhar na penitência. Não sabem de nada, julgam-me doida por preferir os cantos ao abraço do meu carrasco. Não sabem de nada, nem quem sou nem quem fomos.
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Sou a corajosa e digo-te, logo eu que tanto busco o amor. Não queres escutar, foges para as recordações de um corpo único em que fomos e fazes-me chorar. Acaso achas que eu possa esquecê-lo algum dia? É por essa honra que temos e que tivemos que cada caminho agora se fazem dois. Deixemos o que é bom enquanto é bom, não vale a pena apodrecer o que está dentro de nós.
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Afirmas-te diferente e que não voltará a acontecer mas de tantas vezes o dizeres, vejo disfarces nas palavras insistidas em que tentas convencer mais a ti do que a mim. Porque eu nada digo, baixo os olhos para que não vejas que eu sei. Estamos acabados. Que pena. Éramos tão belos. Tão mais belos porque ainda nos gostamos e não podemos estarmos juntos. Infortúnio este.
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Pedes perdão e eu perdoo. Mas não me convenço porque não me perdoo a mim, fica-me um espinho agarrado ao peito a sangrar devagarinho. Sei que outras vezes virão e das próximas esta ferida infectada vai deitar tanto sangue que há-de matar o que já não tenho.
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E de novo essa aflição nos olhos. Não posso ignorar no olhar o que já vi nos meus olhos um dia. É ciúme. Essa fome que começa por comer por dentro antes de desbastar o outro por dentro e acaba a consumir o que de bom se tem. Não quero ser presa nesta jaula de novo, muito menos porque não foi construída por mim. Talvez não seja amor o que sinto, se não quero estar presa e se assim não é, o que é desta vez?
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É por amor, tão só por amor que esta febre te deu, disseste tu e eu até sorri, não lhe chamei o nome que se dá à coisa que amarga o peito e que eu tão bem o conheço por um dia o ter trazido aqui dentro aconchegado. Mas quase tenho medo de o dizer. Ou por lhe saber o gosto e tu tomares-lhe o gosto e não pararmos os dois esta coisa má que nos acabará.
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Não me perguntes se te vou amar para sempre, o sempre é agora porque é agora que é verdadeiro. De onde veio esta fornalha que parece, estará a queimar rápido demais, brasas que se alastram e temo, peguem incêndio ao que parecía o paraíso?
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Tornei-me uma mulher, aprendi-me mulher, deitei-me menina e ergui-me mulher. Não por ele, mas por mim. Para me amar primeiro a mim para depois o amar a ele e a nós. Não me consciencializei do ocorrido, aconteceu naturalmente sem empurrões nem esforço, deixei de me violentar e lembrar de esquecer. Ou esquecer o que tinha para me lembrar. Só precisava de doer para crescer. Como a todos.
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Falamos menos, dizemos mais. Olhamo-nos e sabemos. Por vezes nem precisamos de nos tocar mas é fundamental que estejamos perto um do outro, que nos olhemos, para saber o que dizer, o que ouvir. Ele chega e põe a flor no meu cabelo. E depois parece nada. E tudo acontece. Um beijo. Por vezes ficamos muito tempo no silêncio, sem darmos as mãos, quem nos observar há-de dizer que somos dois estranhos, casualmente sentados lado a lado. Sem sitio especial. É verdade, só nós o conseguimos ver.
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A exultação do amor através da linguagem do corpo, tudo fala, gritos silenciosos em que a pele se explica melhor que as palavras ditas, as palavras na mão do escritor habituado. O meu corpo ensinado, o corpo virgem como se sempre tivesse sido educado ou preparado para esse instante. Tudo me fala. E no final, amo-te.
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Cada beijo é uma descoberta, uma jóia, novos sentidos explodem em mim como se outra em mim se construísse dentro e rompesse a de fora. Sinto uma quase dor que não chega ser dor e no entanto dói, desejo esta dor, tão parecida a um prazer. Acho-me quando só no meu quarto, em contemplativas visitas a estes beijos e de olhos fechados revivo-os em momentos únicos como se lhes adivinhasse um fim próximo. Guardo-os na minha memória.
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Como é diferente amar e ter amor. Tão estranho amar e não ter mágoas e não sentir dúvidas e ao mesmo tempo suspeitar e perguntar porquê eu no meio de tantas, que terei eu de especial. E ainda assim, olhar no espelho e ver brilhar e dizer com as palmas atiradas à imagem, eu sou tão especial, amo e sou amada, sem mais nada que não eu, porque sou eu, e se outra fosse não haveria este amor tão raro e especial.
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Este foi um beijo de beijo dado. De beijo recebido. De olhos abertos para ter certezas no beijo de olhos fechados. Um beijo de paixão, um beijo de certezas no amor duvidoso, um beijo-sim, um beijo-afinal, um beijo-verdade. Este foi o beijo que não dei e que sonhei por tantas noites, o treinado, o imaginado. Mas foi muito mais que isso, porque foi a surpresa do momento, a vontade minha e dele sem mais ninguém no peito que nós dois, foi a minha liberdade finalmente a desejar, sou eu a beijar.
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Aprender a amar, disse-me ele, e ofereceu-me outra flor. Quase todos os dias me dá uma flor, diz-me que sou como a natureza e como ela devo ser brindada com todas as cores e perfumes. É fácil gostar dele, estar com ele, mas não sei se é um novo amor. Talvez me tenha habituado a amores difíceis ou apenas amores imaginados em que desenhamos tudo para parecer um príncipe encantado porque sabemos que este não existe. O mal é de mim, só pode ser, que tenho o que quero e só me acho defeitos para não ter o que posso.
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Ofereceram-me um flor. Depois puseram a flor no meu cabelo. Eu ri. E perguntaram-me se eu não vía o que estava a acontecer. Calei-me porque o momento era sério. Entendi nesse instante que se falava de coisas do coração e eu não tinha visto. Cega. Envergonhei-me, quis fugir mas seguraram-me a mão. Pedi perdão, pediram-me tempo e esperança e eu não soube dizer nada.
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Talvez agora saibas o que custa ignorar a existência dos que estão, dos que passam. Não que o faça de propósito, mas deixaste de pertencer ao meu mundo, não te quero, incomodas a minha felicidade. Vai para longe com o teu olhar tristonho e melancólico. Procura quem te cure ou faz o que eu fiz, enterra o teu coração.
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Quando se está alegre a alegria vem ter connosco, é um contágio que se propaga sem conseguir conter. Ando feliz e tanta gente vem ter comigo feliz, chamando outros para estarem felizes. Até tu. Mas não vinhas feliz. E assim, logo te voltei as costas. És passado, não sei quem és.
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Sinto-me corajosa, tenho um coração vibrante e forte capaz de enfrentar tudo e todos. A minha vontade de viver derrota qualquer um e o meu riso enfraquece os olhares que me tinham como a pobre coitada. Tenho fome de vida, quero ser, quero amar. Mas não aceitarei quem não respeitar a condição que tenho gravada no meu peito: Dar e receber.
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Nem sempre é perto que se está longe. De regresso a casa encontrei um amigo. Há tanto tempo que não nos falávamos. Conversa de infância que me trouxe vontade de sorrir e rir. E ele sorriu e riu. E dum tempo longínquo aproximámos distâncias como se a porta de casa fosse a mesma. Esqueci-me do meu coração perdido e nasceu-me um outro, vivo, jovem, a pular de vermelho e barulhento.
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Por cada caminho feito, distancio-me mais do caminho de casa. Novas ruas, novos rostos, outra rapariga em mim que descubro. Talvez me perca. Fantasio perder-me para me acharem. Ou apenas para sentir um bocadinho de medo na tentativa de regresso ao caminho conhecido.
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Gosto de sentir este frio a gelar-me o rosto. Faz-me sentir viva. É como um estalo que acorda e desperta todos os sentidos, os olhos ficam capazes de ver tudo melhor. Passeio por caminhos onde sei que já estive mas tudo me parece novidade. E acho belo. E acho-me a sorrir deste encontro novo com o passado. Não tenho medo.
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Habituei-me a estar comigo e gosto de estar só comigo. Sei com o que posso contar. Sem sobressaltos, sem dor, sem o disparo da felicidade que descompassa o ritmo dos dias. Tudo está certo.
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Perguntaram-me porque não sorrio. Não sei. Perguntaram-me porque não choro. Não sei. Perguntaram-me então, porque não me zangava, saía e barafustava pela injustiça do que me tinha acontecido. Não me lembro de nada. Disseram-me então, que era tempo de achar um novo amor, que o meu coração era bom e que merecia ser feliz. Não sei de quem falavam.
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Estive a olhar de longe o jardim, o banco e foi como se admirasse uma pintura. A árvore, completamente despida enfeita de um jeito macabro o sitio onde enterrei o coração. Mas não me dói, não me diz nada. Apenas assisto como se eu fosse uma visitante num museu, ao longe uma bela pintura. Sigo o meu caminho, outros quadros a ver, nada me prende em especial para além de bonito ou feio.
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Não me lembro de mim há um ano. Porventura passaram cem, mil, uma eternidade. Não por que peça para me lembrar de mim, do amor que lhe sentía. Não. Lembrei-me de mim como quando nos sentamos à beira da cama a revisitar velhos álbuns de fotografias esquecidas pelo tempo e exclamamos que não tínhamos memória daqueles dias. Só que dele nem sequer tenho um retrato.
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Com o coração esquecido despertaram-me os outros sentidos. Afinal o sexto era o amor. Esta descoberta antes não a tivesse feito, a descoberta dos cinco antes a tivesse mantido no que sempre fora, que os olhos vêem mais agora, as mãos sentem mais a solidão e o gosto amargo dos lábios a beberem as lágrimas aperta o quarto numa míngua ruinosa que ensurdece o silêncio de não escutar o coração.
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©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016