Não me perguntes se te vou amar para sempre, o sempre é agora porque é agora que é verdadeiro. De onde veio esta fornalha que parece, estará a queimar rápido demais, brasas que se alastram e temo, peguem incêndio ao que parecía o paraíso?
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Tornei-me uma mulher, aprendi-me mulher, deitei-me menina e ergui-me mulher. Não por ele, mas por mim. Para me amar primeiro a mim para depois o amar a ele e a nós. Não me consciencializei do ocorrido, aconteceu naturalmente sem empurrões nem esforço, deixei de me violentar e lembrar de esquecer. Ou esquecer o que tinha para me lembrar. Só precisava de doer para crescer. Como a todos.
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Falamos menos, dizemos mais. Olhamo-nos e sabemos. Por vezes nem precisamos de nos tocar mas é fundamental que estejamos perto um do outro, que nos olhemos, para saber o que dizer, o que ouvir. Ele chega e põe a flor no meu cabelo. E depois parece nada. E tudo acontece. Um beijo. Por vezes ficamos muito tempo no silêncio, sem darmos as mãos, quem nos observar há-de dizer que somos dois estranhos, casualmente sentados lado a lado. Sem sitio especial. É verdade, só nós o conseguimos ver.
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A exultação do amor através da linguagem do corpo, tudo fala, gritos silenciosos em que a pele se explica melhor que as palavras ditas, as palavras na mão do escritor habituado. O meu corpo ensinado, o corpo virgem como se sempre tivesse sido educado ou preparado para esse instante. Tudo me fala. E no final, amo-te.
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Cada beijo é uma descoberta, uma jóia, novos sentidos explodem em mim como se outra em mim se construísse dentro e rompesse a de fora. Sinto uma quase dor que não chega ser dor e no entanto dói, desejo esta dor, tão parecida a um prazer. Acho-me quando só no meu quarto, em contemplativas visitas a estes beijos e de olhos fechados revivo-os em momentos únicos como se lhes adivinhasse um fim próximo. Guardo-os na minha memória.
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Como é diferente amar e ter amor. Tão estranho amar e não ter mágoas e não sentir dúvidas e ao mesmo tempo suspeitar e perguntar porquê eu no meio de tantas, que terei eu de especial. E ainda assim, olhar no espelho e ver brilhar e dizer com as palmas atiradas à imagem, eu sou tão especial, amo e sou amada, sem mais nada que não eu, porque sou eu, e se outra fosse não haveria este amor tão raro e especial.
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Este foi um beijo de beijo dado. De beijo recebido. De olhos abertos para ter certezas no beijo de olhos fechados. Um beijo de paixão, um beijo de certezas no amor duvidoso, um beijo-sim, um beijo-afinal, um beijo-verdade. Este foi o beijo que não dei e que sonhei por tantas noites, o treinado, o imaginado. Mas foi muito mais que isso, porque foi a surpresa do momento, a vontade minha e dele sem mais ninguém no peito que nós dois, foi a minha liberdade finalmente a desejar, sou eu a beijar.
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Aprender a amar, disse-me ele, e ofereceu-me outra flor. Quase todos os dias me dá uma flor, diz-me que sou como a natureza e como ela devo ser brindada com todas as cores e perfumes. É fácil gostar dele, estar com ele, mas não sei se é um novo amor. Talvez me tenha habituado a amores difíceis ou apenas amores imaginados em que desenhamos tudo para parecer um príncipe encantado porque sabemos que este não existe. O mal é de mim, só pode ser, que tenho o que quero e só me acho defeitos para não ter o que posso.
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Ofereceram-me um flor. Depois puseram a flor no meu cabelo. Eu ri. E perguntaram-me se eu não vía o que estava a acontecer. Calei-me porque o momento era sério. Entendi nesse instante que se falava de coisas do coração e eu não tinha visto. Cega. Envergonhei-me, quis fugir mas seguraram-me a mão. Pedi perdão, pediram-me tempo e esperança e eu não soube dizer nada.
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Talvez agora saibas o que custa ignorar a existência dos que estão, dos que passam. Não que o faça de propósito, mas deixaste de pertencer ao meu mundo, não te quero, incomodas a minha felicidade. Vai para longe com o teu olhar tristonho e melancólico. Procura quem te cure ou faz o que eu fiz, enterra o teu coração.
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Quando se está alegre a alegria vem ter connosco, é um contágio que se propaga sem conseguir conter. Ando feliz e tanta gente vem ter comigo feliz, chamando outros para estarem felizes. Até tu. Mas não vinhas feliz. E assim, logo te voltei as costas. És passado, não sei quem és.
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Sinto-me corajosa, tenho um coração vibrante e forte capaz de enfrentar tudo e todos. A minha vontade de viver derrota qualquer um e o meu riso enfraquece os olhares que me tinham como a pobre coitada. Tenho fome de vida, quero ser, quero amar. Mas não aceitarei quem não respeitar a condição que tenho gravada no meu peito: Dar e receber.
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Nem sempre é perto que se está longe. De regresso a casa encontrei um amigo. Há tanto tempo que não nos falávamos. Conversa de infância que me trouxe vontade de sorrir e rir. E ele sorriu e riu. E dum tempo longínquo aproximámos distâncias como se a porta de casa fosse a mesma. Esqueci-me do meu coração perdido e nasceu-me um outro, vivo, jovem, a pular de vermelho e barulhento.
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Por cada caminho feito, distancio-me mais do caminho de casa. Novas ruas, novos rostos, outra rapariga em mim que descubro. Talvez me perca. Fantasio perder-me para me acharem. Ou apenas para sentir um bocadinho de medo na tentativa de regresso ao caminho conhecido.
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Gosto de sentir este frio a gelar-me o rosto. Faz-me sentir viva. É como um estalo que acorda e desperta todos os sentidos, os olhos ficam capazes de ver tudo melhor. Passeio por caminhos onde sei que já estive mas tudo me parece novidade. E acho belo. E acho-me a sorrir deste encontro novo com o passado. Não tenho medo.
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Habituei-me a estar comigo e gosto de estar só comigo. Sei com o que posso contar. Sem sobressaltos, sem dor, sem o disparo da felicidade que descompassa o ritmo dos dias. Tudo está certo.
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Perguntaram-me porque não sorrio. Não sei. Perguntaram-me porque não choro. Não sei. Perguntaram-me então, porque não me zangava, saía e barafustava pela injustiça do que me tinha acontecido. Não me lembro de nada. Disseram-me então, que era tempo de achar um novo amor, que o meu coração era bom e que merecia ser feliz. Não sei de quem falavam.
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Estive a olhar de longe o jardim, o banco e foi como se admirasse uma pintura. A árvore, completamente despida enfeita de um jeito macabro o sitio onde enterrei o coração. Mas não me dói, não me diz nada. Apenas assisto como se eu fosse uma visitante num museu, ao longe uma bela pintura. Sigo o meu caminho, outros quadros a ver, nada me prende em especial para além de bonito ou feio.
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Não me lembro de mim há um ano. Porventura passaram cem, mil, uma eternidade. Não por que peça para me lembrar de mim, do amor que lhe sentía. Não. Lembrei-me de mim como quando nos sentamos à beira da cama a revisitar velhos álbuns de fotografias esquecidas pelo tempo e exclamamos que não tínhamos memória daqueles dias. Só que dele nem sequer tenho um retrato.
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Com o coração esquecido despertaram-me os outros sentidos. Afinal o sexto era o amor. Esta descoberta antes não a tivesse feito, a descoberta dos cinco antes a tivesse mantido no que sempre fora, que os olhos vêem mais agora, as mãos sentem mais a solidão e o gosto amargo dos lábios a beberem as lágrimas aperta o quarto numa míngua ruinosa que ensurdece o silêncio de não escutar o coração.
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Porquê falar de coisas velhas, de ti a mim, da tua tristeza ao meu esquecer, da tua procura à minha partida, do teu interesse ao meu fantasma? Enfado-me, afasto-me, não posso ouvir falar de nós quando nunca tal aconteceu, não quero ouvir falar de futuros possíveis quando as folhas já levadas pelo vento assobiam o frio do final da tarde e me recolho a casa a olhar a noite a caír o que já me escureceu há muito. Não mais, disse eu. Não te quero mais, não ouviram?
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Vi-te passar, olhares para mim, parares. A tua hesitação em falares de coisa antiga foi a minha certeza. Não te quero falar, nem ouvir. Não te quero nada. Quero seguir. Porque quando te vi não te vi, nada senti, eras uma mancha que eu esfreguei até ficar tudo limpo de novo. A tua hesitação é já um outro caminho, o meu uma certeza. Não se cruzam, não voltam, não se enlaçam.
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Tomara já que as folhas das árvores caiam todas. Que os meus pés nos passos perdidos se percam nas folhas caídas sem os poder contar entre tanta folha morta. Eu não estou morta. Nem viva. Nem dorida. Vagueio-me.
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Um dia hei-de encontrar um amor igual ao meu. Grande como o meu. Pequenino que caiba dentro do peito e se ache que se chama coração. Aquele que matei por amor tanto a ele, acabei por não matar. Matou-o ele. Por não saber amar. Por não saber receber o meu amor ou apenas dar a oportunidade de o receber. Um dia ele há-de saber o que é não ter amor e doer por ter de matar o amor.
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Bateste à minha porta de olhos baixos, um pedido de desculpa nos olhos baixos, mas nos lábios um silêncio trocado por conversa miúda. E eu à espera que me dissesses a verdade. Mas tu nada disseste. Não sei porque falei ou se terá sido o fantasma de mim que abriu a boca e a voz saíu. Sem rodeios confessei o meu amor por ti. Os longos anos em que te procurei, todo o tempo em que sofri calada ao ver-te beijar outra, outras, quando te amava. A esperança, por cada vez que te aproximavas ou me falavas ou até o toque da mão nas minhas. A lembrança de um dia junto ao mar a recolher uma lágrima, não te recordas. Mas agora, não mais.
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Não volto mais ao nosso jardim, ao nosso banco. Ali, perto dele e junto à árvore, enterrei o meu coração. Não fica bem visitar a lápide de nós próprios. Fico por casa. Hei-de por aqui vaguear como um fantasma do que já fui, visitar o quarto da que fui e da que sonhei, quando achava que havia esperança de que um dia me olharías e verías a diferença de um verdadeiro amor. Não mais, não mais.
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Calhou estar ali sentada, no nosso banco, e tu passares com outra. Sei que me viste. Até olhaste uma segunda vez. Deste a mão a essa que contigo acompanhava e apressaste o passo. Senti que as minhas pernas queríam correr, mas o coração enterrou-se junto à árvore que me dava sombra e assim, sem sangue que desse combustível para me activar, não me mexi. Fiquei a ver-te as costas até me doerem os olhos e vez nenhuma te voltaste para ver se eu estava aqui.
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Vou ao jardim e sento-me no nosso banco. Como se algum dia tivesse sido nosso, e chamo nosso o que nunca passou de mim e do meu desejo. Faço de mim e da tua imagem desejada um plural imaginado. Sento-me no nosso banco de jardim, no nosso jardim, faz muito calor mas permaneço mesmo que o lugar esteja frio e desocupado.
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Um dia não vieste, e depois dois dias, e a seguir esqueceste-te. Pediste desculpa. Disseste que tinhas muitas coisas para fazer. Eu disse que não tinha importância, tu sorriste, foste embora mais cedo. Vi-te passar mais tarde com uma outra. Não sei porquê, nem me doeu. Mas imaginei-te sentado no nosso banco de jardim com ela, a contar as mesmas aventuras que me contaste para me fazer rir e chorei sem sentir dor nenhuma.
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Procuras a minha companhia todos os dias e ironicamente, tento evitar-te porque a humilhação cobre-me tanto quanto o amor que te tenho. Sentamo-nos no banco do jardim como dois namorados mas não damos as mãos. Tu falas e eu olho para o chão. Depois levas-me a casa, e por detrás das cortinas, sozinha, fico a responder a todas perguntas que fizeste. Meu amor.
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©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016