Tomara já que as folhas das árvores caiam todas. Que os meus pés nos passos perdidos se percam nas folhas caídas sem os poder contar entre tanta folha morta. Eu não estou morta. Nem viva. Nem dorida. Vagueio-me.
.../...
Um dia hei-de encontrar um amor igual ao meu. Grande como o meu. Pequenino que caiba dentro do peito e se ache que se chama coração. Aquele que matei por amor tanto a ele, acabei por não matar. Matou-o ele. Por não saber amar. Por não saber receber o meu amor ou apenas dar a oportunidade de o receber. Um dia ele há-de saber o que é não ter amor e doer por ter de matar o amor.
.../...
Bateste à minha porta de olhos baixos, um pedido de desculpa nos olhos baixos, mas nos lábios um silêncio trocado por conversa miúda. E eu à espera que me dissesses a verdade. Mas tu nada disseste. Não sei porque falei ou se terá sido o fantasma de mim que abriu a boca e a voz saíu. Sem rodeios confessei o meu amor por ti. Os longos anos em que te procurei, todo o tempo em que sofri calada ao ver-te beijar outra, outras, quando te amava. A esperança, por cada vez que te aproximavas ou me falavas ou até o toque da mão nas minhas. A lembrança de um dia junto ao mar a recolher uma lágrima, não te recordas. Mas agora, não mais.
.../...
Não volto mais ao nosso jardim, ao nosso banco. Ali, perto dele e junto à árvore, enterrei o meu coração. Não fica bem visitar a lápide de nós próprios. Fico por casa. Hei-de por aqui vaguear como um fantasma do que já fui, visitar o quarto da que fui e da que sonhei, quando achava que havia esperança de que um dia me olharías e verías a diferença de um verdadeiro amor. Não mais, não mais.
.../...
Calhou estar ali sentada, no nosso banco, e tu passares com outra. Sei que me viste. Até olhaste uma segunda vez. Deste a mão a essa que contigo acompanhava e apressaste o passo. Senti que as minhas pernas queríam correr, mas o coração enterrou-se junto à árvore que me dava sombra e assim, sem sangue que desse combustível para me activar, não me mexi. Fiquei a ver-te as costas até me doerem os olhos e vez nenhuma te voltaste para ver se eu estava aqui.
.../...
Vou ao jardim e sento-me no nosso banco. Como se algum dia tivesse sido nosso, e chamo nosso o que nunca passou de mim e do meu desejo. Faço de mim e da tua imagem desejada um plural imaginado. Sento-me no nosso banco de jardim, no nosso jardim, faz muito calor mas permaneço mesmo que o lugar esteja frio e desocupado.
.../...
Um dia não vieste, e depois dois dias, e a seguir esqueceste-te. Pediste desculpa. Disseste que tinhas muitas coisas para fazer. Eu disse que não tinha importância, tu sorriste, foste embora mais cedo. Vi-te passar mais tarde com uma outra. Não sei porquê, nem me doeu. Mas imaginei-te sentado no nosso banco de jardim com ela, a contar as mesmas aventuras que me contaste para me fazer rir e chorei sem sentir dor nenhuma.
.../...
Procuras a minha companhia todos os dias e ironicamente, tento evitar-te porque a humilhação cobre-me tanto quanto o amor que te tenho. Sentamo-nos no banco do jardim como dois namorados mas não damos as mãos. Tu falas e eu olho para o chão. Depois levas-me a casa, e por detrás das cortinas, sozinha, fico a responder a todas perguntas que fizeste. Meu amor.
.../...
Abro os olhos e a luz magoa-me, mas reconheço o teu cheiro até nesta minha morte. Porque morreste também? Ouço a tua voz, sinto a tua mão no meu rosto, os teus braços a ampararem-me, gente ao redor. Que aconteceu? Nem na morte podemos ficar apenas os dois? Um desmaio dizes-me tu. Que vergonha.
.../...
Aproximaste-te e à medida dos teus passos perto, mais eu ficava longe como se mãos invisíveis me agarrassem e me puxassem para um escuro longínquo. Depois entrei num poço, quería gritar mas não tinha voz, quería ver mas estava cega e tudo tinha desaparecido. Tanto que quis morrer que aconteceu. Logo agora que caminhaste na minha direcção.
.../...
Vejo-te. Nem sequer estás muito longe de mim. Quase te alcanço, mas não sei se tenho vontade, ou se acho forças dentro do meu peito para fazer bater o meu coração, e depois voltar a perder-te, voltar a perder este ardor que já conheci. Melhor deixar ir-te, se calhar és apenas uma mentira como este dia de Abril.
.../...
Nada importa. Nada tem valor. Sigo cada rua por onde ontem passei, como a passei nos tempos em que te descobri. No tempo em que te amei. Sou uma viúva sem casamento, sem beijo dado, sem noite amada. Sem branco vestido, desejo que a morte me chegue rápido, nada me resta que esse dia, nem estas ruas tristes que cada dia que passam me parecem mais tristes.
.../...
O tempo passa devagar como se não andasse, como se fizesse de propósito para me magoar. Não voltei a encontrar-te nem a ouvir falar de ti. Mas sei que não estou doida e que existes mesmo, vem-me à lembrança pedaços do que ouvi sobre ti, bocados do teu rosto. Mas não consigo recordar o teu cheiro... Se eu fosse ainda uma criança pedia ao Pai Natal para me oferecer de presente a tua visita. Nem que fosse de longe. Só por uns instantes.
.../...
Vieram falar-me de ti. E eu calada. Não quero saber. Quem me fala de ti conta-me que falaste de mim. E eu calada. Quero saber. Mas é tudo tão inesperado que nem percebo o que me contam, as palavras chegam numa lingua que desconheço, será que ouço o que quero ouvir ou dizem-me o que disseste? Peço para repetirem duas, três vezes, mas olham-me como se eu falasse de uma coisa estranha.
.../...
Os caminhos por onde passo são os mesmos de sempre. Os da tua procura. Deveríam estar gastos de tanto aqui passar. Ou os meus pés gastos, comidos até aos joelhos de tanto calcorrear ruas na procura da tua sombra, das tuas costas a irem-se e eu atrás de ti como sempre, como sempre uns metros atrasada para que não desconfies. De que me servem pés e pernas se não te acho? Começo a desesperar, sinto-me triste, triste.
.../...
Chove, chove muito. Li há muito tempo que quando chove assim, são os anjos que choram. Procuro livros de poesia onde consiga entristecer-me pela tua falta, mas tudo me aborrece, nada me entretém, nada me põe nesse estado de melancolia que leio nos poetas apaixonados a falarem de anjos que choram. Só consigo ver-te e essa imagem enche-me o peito, deixa-me feliz.
.../...
Terminou o Verão e guardei as recordações de uma paisagem de mar e tu ao meu lado. Gostava de saber escrever poesia para te fazer um poema. Havería de contar sobre as minhas lágrimas como diamantes ou qualquer outra coisa bonita como os poetas sabem dizê-lo. Só para te oferecer. Tomara que o Outono te traga de volta a mim. Escrevería um hino.
.../...
A vida tornou-se mais fácil. Para além do que me lembro, tenho a tua voz presente, o saber a que sabe o teu beijo, o saber a que cheiras, o calor das tuas mãos a prender a minha. São presentes, são segredos. Tenho dias que sou feliz apenas com isto. Outros, digo-me que mereço mais. E vou empurrando o tempo em doses de sim e não até encontrar-te de novo.
.../...
Descubro-me a achar o teu cheiro em toda a parte e fico doida a procurar-te. Rodo à volta de mim, das minhas mãos, dos meus braços, fico tonta de tanto girar à volta do que me cerca e não te vejo. O meu nariz prega partidas como se te escondesses de mim só para me pôr à prova. Não esqueci a que cheiras.
.../...
Cheiro a minha mão, os dedos, o pulso, a minha mão direita cheira a ti, a minha mão direita não tem o cheiro da minha mão esquerda. A minha mão esquerda cheira a mim e esta, a que tu tiveste entre as tuas mãos e beijaste cheira a ti. Deixaste-me um pedacinho de ti na minha mão. Não foi só um beijo, não foram só os teus olhos nos meus olhos e o meu riso parvo, foi o teu cheiro agarrado à minha pele. O sonho que eu tive era o aviso do que ía acontecer, sei-o.
.../...
Seguraste-me a mão, a direita. A mão direita entre as tuas. Não me lembro do que disseste, não o consegui ouvir, vejo os teus lábios a mexer mas não consigo ouvir o que dizes, tudo roda à minha volta e ouço um zumbido que aumenta e cobre todos os outros sons. Fala mais alto que não entendo o que dizes, só sinto a minha mão direita entre as tuas mas também não consigo olhar para ela, estou presa aos teus olhos e tudo anda tão devagar como se fosse um filme passado em câmara lenta.
.../...
Agora que estavas tão perto eu só quería fugir! Que vergonha! As pernas tremíam-me, as mãos suadas como água bebida por elas, e o riso a saír como uma tonta. A boca não conseguía dizer nada, só o riso ocupava o sitio das palavras e por mais que eu tentasse não conseguía, não conseguía. Tu olhavas para mim e sorrías, quase benevolente, sorrías com compaixão por esta pateta alegre. E de cada vez que nos encontramos é assim: choro e rio sem dizer que te amo.
.../...
Onde as esquinas se encontram assim batemos nós. Um no outro sem nos procurarmos. Pelo menos tu, que não me buscas de certeza pela certeza da minha inexistência e eu, que nesse dia não te pensava por ali. Batemos coração com coração e os teus olhos sorriram primeiro que a boca e a minha boca riu ao mesmo tempo que os olhos. E tu disseste a menina que olha o mar e chora quando o vê. Afinal recordas-te de mim.
.../...
Sabendo da minha perdição por ti escusam-se a falar-me de ti, de amor, de todas as coisas que me possam levar à lembrança do que tu és. Pobres coitados que me pensam como pobre coitada. Nunca me sais, és sempre tudo o que respiro, o que sou. Muito menos são eles que se evitam à dor na esperança de escaparam à flecha do amor verdadeiro. Não eu, eu dou o meu peito e sorrio.
.../...
Sonhei contigo. Não falaste, apenas te abeiraste de mim, seguraste o meu rosto, muito perto. Senti-me a queimar por dentro, quase envergonhada por saberes o quanto te quero. Tocaste os meus lábios com a ponta dos dedos. Não fechei os olhos. Lembro-me de lembrar que era um sonho. Beijaste-me. Ficou tudo branco. Acordei. Nunca me tinhas beijado, nunca, nunca. Nem me consigo mexer com medo de esquecer.
.../...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
©opyright Escritos Nefastos, Maria Manuel Gonzaga, 2009-2016